Esquerda, por Saramago

•Fevereiro 25, 2009 • Deixe um comentário

“Temos razão, a razão que assiste a quem propõe que se construa um mundo melhor antes que seja demasiado tarde, porém, ou não sabemos transmitir às pessoas o que é substantivo nas nossas ideias, ou chocamos com um muro de desconfianças, de preconceitos ideológicos ou de classe que, se não conseguem paralisar-nos completamente, acabam, no pior dos casos, por suscitar em muitos de nós dúvidas, perplexidades, essas sim paralisadoras. Se o mundo alguma vez conseguir ser melhor, só o terá sido por nós e connosco. Sejamos mais conscientes e orgulhemo-nos do nosso papel na História. Há casos em que a humildade não é boa conselheira. Que se pronuncie bem alto a palavra Esquerda. Para que se ouça e para que conste.

Escrevi estas reflexões para um folheto eleitoral de Esquerda Unida de Euzkadi, mas escrevi-as pensando também na esquerda do meu país, na esquerda em geral. Que, apesar do que está passando no mundo, continua sem levantar a cabeça. Como se não tivesse razão”

Ano novo, vida nova?

•Janeiro 4, 2009 • Deixe um comentário

O ano de 2009 acabou de começar e acho muito engraçado este clima de ano novo. Todo mundo parece ganhar um pouco mais de esperança, como se o ano que está chegando fosse a chance de fazer tudo melhor.  Roupas brancas, calcinhas coloridas, oferendas, ondas, tâmaras, abraços, fogos, preces, tudo para atrair coisas boas para o próximo ano.

Sempre fui muito cética e não acredito em nada disso.  Ás vezes faço uma ou outra dessas coisas, mas mais pela diversão do que por realmente acreditar que vai surtir algum efeito.  Para mim é quase como ler horóscopo. Não acredito em nada do que está escrito, mas quando está na minha frente sempre leio, mesmo que para esquecer as previsões cinco minutos depois. Esse ano, passei de branco, pois de uma hora para a outra cai de amores por essa cor (até deixei um pouco de lado o tão amado vermelho) e tinha algumas roupas novas para estrear.

Para dizer a verdade, acho tudo isso muito engraçado. Me diverte ver como as pessoas acreditam que a calcinha rosa vai trazer o príncipe encantado ou que a vermelha vai nos encher de paixão e sexo.  Conheço pessoas que há anos passam sempre com a mesma cor de calcinha e seus problemas continuam ali, do mesmo tamanho, não ficaram ricas, apaixonadas ou em paz.

Acho que no fundo é muito aquela coisa de “vai que existe” ou “vai que acontece”. Afinal, não custa nada colocar aquela roupinha branca, pular aquela onda ou fazer aquela oraçãoMe diverte também pensar em como as coisas no Brasil são misturadas. Muitas pessoas não veem (agora sem acento!) a mínima contradição em fazer tudo isso ao mesmo tempo. Afinal, para que escolher agradar um só deus, se nem sabemos qual deles existe, vai que eu rezo e a Iemanjá se vinga ou vice-versa. Ou seja, não custa nada passar de branco, vai que funciona, não é?

Acho que o mais interessante disso tudo é ver como que as pessoas querem sempre mudar de vida, mas sem ter que fazer nada para isso. Por exemplo, o amor. O amor não é uma coisa fácil, nunca foi e nem nunca será. Não acredito em principe encantado, amor à primeira vista ou amor eterno. Acredido mais em amar uma pessoa, em querer estar ao lado dela e em se sacrificar em alguns momentos para que isso seja possível e prazeroso.  Não acho que amor é ficar ali esperando que os astros se unam para me fazer feliz ou que Deus conclua que é um amor digno. Acho que é muito mais uma questão de respeito, de carinho, de cuidado e que para ser feliz no amor (ou para ter dinheiro ou para ter paz) precisamos de batalhar por isso.

Claro que algumas pessoas não precisam batalhar tanto assim. Quando se fala em dinheiro, por exemplo, várias pessoas já nascem ricas ou com muitos caminhos abertos. Outras nascem tão miseráveis e sem recursos que podem trabalhar durante milhões de horas e nunca se tornarão ricas. Como diz uma amiga “quem trabalha demais não tem tempo para ganhar dinheiro”, o que é muito verdade quando pensamos na situação de milhões de pessoas que ralam o dia inteiro para sobreviver, enquanto outras vivem do trabalho alheio. Contudo, não refiro a esses extremos, mas sim a todos os demais que estão ali na média (na classe média, na sorte média). Àqueles que têm nas mãos alguns instrumentos, mas não todos para buscar aquilo que sonham. É para nós que eu acho que um pouco mais de batalha pode ajudar a conquistar os sonhos. Um pouco mais de esforço pode nos levar a atingir, em alguns momentos, até o inesperado, o sublime, o maravilhoso.

Outra coisa que acho interessante quando pensamos nesse assunto são as resoluções de ano novo. Todos pensam nas coisas que querem e em como vão batalhar para conquistá-las: parar de beber ou de fumar, malhar, estudar. Fazem planos e prometem para si mesmas o inatingível. A maioria das pessoas sabe da enorme distância entre querer parar de fumar ou falar que quer e realmente fazê-lo, por exemplo. E é assim com todas as coisas. Quero ser magra, mas não quero ter que parar de me deliciar com um bom prato ou perder aqueles momentos magníficos de preguiça.Contudo, mesmo sabendo que não vamos cumprir a maioria de nossas resoluções, é sempre confortante tê-las, pensar que sabemos minimamente o que temos que fazer para sermos um pouco mais felizes.

A minha sugestão (da qual fez parte a música que coloquei abaixo) é que possamos continuar sonhando e buscando os nossos sonhos, mas que devemos talvez sonhar um pouco menos e tentar realizar mais. Se quisermos ser as mais magras, bonitas, inteligentes, ricas, bem vestidas, simpáticas, divertidas, vamos acabar nos frustrando em todas as alternativas. Afinal, nada menos legal do que alguém que só se preocupa em ser magra ou em alguém que só sonha em ser bem vestida. Nada menos inteligente do que ficar querendo parecer ser inteligente e assim por diante. Então, nesse ano, vou tentar escolher um ou dois objetivos e tentar batalhar por eles, se realizar pelo menos um já estarei um pouco mais perto daquilo que sonho.

Fitter Happier

•Dezembro 31, 2008 • Deixe um comentário

Fitter, happier, more productive,
comfortable,
not drinking too much,
regular exercise at the gym
(3 days a week),
getting on better with your associate employee contemporaries,
at ease,
eating well
(no more microwave dinners and saturated fats),
a patient better driver,
a safer car
(baby smiling in back seat),
sleeping well
(no bad dreams),
no paranoia,
careful to all animals
(never washing spiders down the plughole),
keep in contact with old friends
(enjoy a drink now and then),
will frequently check credit at (moral) bank (hole in the wall),
favors for favors,
fond but not in love,
charity standing orders,
on Sundays ring road supermarket
(no killing moths or putting boiling water on the ants),
car wash
(also on Sundays),
no longer afraid of the dark or midday shadows
nothing so ridiculously teenage and desperate,
nothing so childish – at a better pace,
slower and more calculated,
no chance of escape,
now self-employed,
concerned (but powerless),
an empowered and informed member of society
(pragmatism not idealism),
will not cry in public,
less chance of illness,
tires that grip in the wet
(shot of baby strapped in back seat),
a good memory,
still cries at a good film,
still kisses with saliva,
no longer empty and frantic like a cat tied to a stick,
that’s driven into frozen winter shit
(the ability to laugh at weakness),
calm,
fitter,
healthier and more productive
a pig in a cage on antibiotics.

Colocando as coisas no lugar

•Outubro 19, 2008 • Deixe um comentário

Para mim, o melhor lugar do mundo, onde me sinto tranquila e feliz, é a minha casa. Adoro ficar em casa, curtindo meu marido e minhas coisas. Sinto falta de ficar a toa, de jogar conversa fora, de aproveitar cada momento. Talvez por isso seja tão difícil ter que viajar todas as semanas e ir para aquela casa com cara e gosto de ninguém.

Esse foi um fim de semana de ficar em casa. Cozinhar um almoço gostoso e ouvir boa música ao lado de quem a gente ama é algo tão simples e ao mesmo tempo surpreendentemente maravilhoso. E depois arrumar a casa. Não aquele arrumar de passar sabão e pano de chão, mas o arrumar que só você pode fazer. Ler os papéis, juntar as coisas, organizar e, principalmente, jogar coisas fora (ou separar para repassar para alguém).

Sacos e mais sacos de coisas que não usava ou que sintia que não precisava mais. Pegar cada coisa e avaliar: o que significou, o que significa, qual a utilidade, qual a possibilidade de usar de novo. Parece que cada etapa e momento do passado vai passando em frente aos nossos olhos e podemos pensar naquilo que queremos ou não manter em nossas vidas.

Parece que a casa sempre reflete a forma como estou me sentindo. Quando estava fazendo o mestrado, bagunçava tudo, papéis, livros e materiais por todos os lados. E para começar um projeto novo, sempre tenho que colocar as coisas no lugar. Enquanto não faço isso, sinto que algo está faltando, que está inacabado. Organizar as coisas importantes de forma que consiga localizá-las depois e me livrar daquilo que não serve mais. A casa fica mais limpa, arrumada e melhor e eu me sinto bem mais leve e agora pronta para começar algo novo. Quem sabe agora não sai o bendito artigo?

Grande mal

•Outubro 14, 2008 • 1 Comentário

Desde que me conheço por gente, sou assombrada por uma doença que quando menos espero volta a se manifestar. Não é nada que me impossibilite de fazer diferentes coisas, mas não deixa de ser muito chato viver com essa incerteza de quando tudo pode voltar. Quando era criança, sempre me senti diferente. Nenhum dos meus amigos tinha que tomar remédios todos os dias, por exemplo. O remédio, para mim, sempre representou a comprovação de que eu não só me sentia diferente, mas realmente era diferente. Pode parecer uma grande bobeira afinal tomo anticoncepcional todos os dias e isso não me faz sentir pior, mas com esse remédio é bastante diferente.

Durante minha adolescência vivi muito esse dilema. Não queria tomar o remédio, mas também não queria nunca ter que passar por uma dessas crises. Acho que só quem já passou por essa situação de nome feio e mal compreendido que é a convulsão pode falar do quanto é difícil. Os tombos e desmaios que nunca escolhem o melhor momento; a sensação de que todos viram o que aconteceu, menos você; os olhares curiosos dos passantes; os olhares de preocupação das pessoas que gostamos. Uma das crises que tive ocorreu quando estava sozinha o que evitou vários constrangimentos, por outro lado, há o medo de que ninguém possa te socorrer. Mais um dilema: querer ter as pessoas por perto, mas também querer se esconder. A última crise pública que tive ocorreu há alguns anos, na frente de várias pessoas. Quando acordei todos olhavam para mim, preocupados e querendo entender o que aconteceu. Lembro até hoje do olhar do meu marido tão preocupado e tão presente ao mesmo tempo. Agora já não fazia mais diferença se tomava ou não o remédio, a diferença entre mim e os outros estava sobre a mesa. Mas o pior de tudo foi pensar “vai começar tudo de novo”. A sensação que me dá às vezes é que estou ali, com meus doze anos, assustada com uma situação que não sei controlar. Talvez seja por isso que durante toda minha vida tenha tentado controlar tudo que posso, tentando prever o imprevisível.

Desde então, tenho feito acompanhamento constante com um médico e voltei à tal da medicação que tanto me incomoda. Há alguns meses, como quando era adolescente, resolvi que não quero mais tomar o remédio, ou melhor, não quero mais ser diferente. Podem imaginar o quanto essa é uma decisão difícil. Tomei coragem e marquei uma consulta com meu médico. Parecia que o dia não ia chegar nunca e a minha ansiedade me fez pensar várias vezes que estava próxima de ocorrer uma crise. Chegou o dia. Contei ao médico a minha dificuldade de tomar o remédio e também que me sentia bem e feliz. Disse ainda que acho que conheço bem minha doença e que posso me prevenir se ela voltar a me assombrar.

Para a minha surpresa, o médico concordou que eu parasse de tomar o remédio. Falou da situação tão específica da última crise e que a probabilidade de que volte a ocorrer é bastante pequena. A felicidade foi tanta de ouvir isso que os olhos ficaram repletos de água (e ainda ficam). Claro que ainda tenho cuidados a tomar. O principal “nada em demasia”. Então, agora resta seguir a vida, buscando as tão queridas e importantes rotinas, cuidando de mim e aproveitando a vida “com moderação”.

Sinto que estou um pouco mais perto da normalidade e bem mais perto da felicidade.

Notas sobre a escrita

•Outubro 6, 2008 • Deixe um comentário

Sempre penso muito no processo de escrita. Escrevo textos inteiros na minha cabeça e que nunca acabam no papel. Às vezes passo horas nesse processo, contando uma história, fazendo um debate teórico, refletindo. As conversas comigo mesma e meu lado escritora ocorrem muito nas madrugadas e quando o dia chega, já esqueci tudo. Talvez tenha vindo dai minha vontade de fazer esse blog. Hoje estava lendo um livro de um autor que gosto muito, Jeffrey Weeks, e que tinha que registrar aqui, pois diz muito das coisas que penso sobre esse assunto.

“‘Writing’ and ’sex’: these are two quite disparate activities, but they are strangely and intimately related. Writing, like sex, always balances precariously on the sifting frontier between the ‘personal’ and the ‘public’. It is apparently one of the most private and lonely of activities, demanding organisation, will-power, autonomy – and a ‘room of one’s own’, in Virginia Woolf’s famous phrase. It inflicts its own very special mixture of pleasure and punishment. For those of us who try to do it, wether for work, duty or vanity, George Orwell’s reflections on writing a book carry the sharp pain of experience: ‘a horrible, exhausting struggle, like a long bout of some painfull illness’

Yet to write is also among the most exhibitionistic and public of acts: the author by necessity writes for an audience, or more precisely attempts to evoke a constituency. Writers, with supreme arrogance, assume they are speaking not only for themselves but for others as well. But we write because we want to say something, and if we are lucky we have something worthwhile to say” Jeffrey Weeks, Against nature, 1991.

Dias de chuva

•Outubro 5, 2008 • 2 Comentários

Hoje é um dia de chuva. O céu está nublado, caem algumas gotas, o dia está feio. Hoje em mim o dia também não está bonito. Talvez a feiura do dia seja um reflexo das nossas sensações. Sinto dor de cabeça, um desânimo generalizado, nada parece muito agradável. É nessas horas que meu trabalho me faz refletir. Só em pensar em entrar em uma sala de aula cheia e durante uma hora e quarenta falar e entreter os alunos me desespero. Às vezes preciso da minha casa, da minha cama, do meu marido, da minha vida. Parece que quando estou aqui estou vivendo uma outra vida. Nem sempre é uma vida tenebrosa como parece hoje. Tem dias em que sinto alegria de entrar em sala, em conversar com os alunos, em sair com os amigos de cá. Contudo, não posso dizer que é propriamente a minha vida. Me canso de ter duas vidas distintas. Duas casas. Dois grupos de amigos. O pior é quando sei que alguém está precisando de mim, que está mal. Sei que às vezes as pessoas não querem conversar, mas que um abraço poderia fazer muito. Algumas pessoas se tornam tão importantes para nós que seu carinho nos faz sentir um pouco melhor. Um carinho que está muito além das palavras e das conversas rápidas por celular. Um aconchego, um sorriso sem graça de quem não sabe bem o que fazer, mas que está à disposição. Hoje é um dia de chuva e precisava estar perto e trocar um abraço apertado, mas terei que esperar amanhã, acho que amanhã vai fazer sol.

Para começar

•Setembro 29, 2008 • Deixe um comentário

Começar algo novo sempre me parece algo difícil ou até mesmo impossível. Gosto do mesmo, gosto da rotina, gosto de trilhar aqueles caminhos que já conheço. Sempre evito a mudança, que me assusta e me faz buscar a segurança em outros lugares. Contudo, viver é mudar, é fazer de novo, recomeçar, jogar fora, agir. O tempo todo me vejo em situações diferentes e, por isso mesmo, surpreendentes. Quando isso acontece, lembro o quanto gosto do desafio e da novidade, que assustam, mas também motivam. Mas devo dizer que acima de todas essas coisas, algo que me agrada muito é quando me surpreendo com o antigo, que se mostra sobre um novo formato. Fazer de um velho conhecido um amigo, conhecer uma face nova de quem se ama, rever conceitos e idéias, enfim, perceber a beleza e a inconstância do mesmo. Essa é a idéia desse blog, não escrever sobre algum assunto específico e trazer novidades, mas escrever e refletir sobre coisas aleatórias, que se tornam interessantes por motivos também aleatórios.